sexta-feira, 7 de novembro de 2008

98 - 2XNELSON - O BEIJO NO ASFALTO

A montagem que inaugurou a sede do Depósito de Teatro - espaço de arte e cultura foi "O Beijo no Asfalto", texto de Nelson Rodrigues escolhido e dirigido pela Patrícia Fagundes, a quem pedi que escrevesse alguma coisa para postar neste blog. Enquanto seu texto não chega, embora eu tenha uma memória restrita, vou escrever um relato meu, recordações pessoais sobre o processo, sobre a estréia da peça e lançamento do espaço.
Lembro que ensaiávamos na Cia de Arte. Somente o último mês e pouco de ensaios aconteceu no "nosso" novo espaço: um maravilhoso salão com sete metros de altura, piso de parquê, medindo inacreditáveis 13m X 26m. Não lembro quantos meses ensaiamos, mas tenho a impressão de que não foram muitos. Provavelmente uns três. Inicialmente, como quase sempre são os começos, num clima de cordialidade e companheirismo. A Patrícia tem uma grande habilidade em dotar os ensaios de um saudável clima de trabalho e coleguismo. Mesmo assim, mais tarde, enfrentamos as dificuldades de relacionamento que aparecem em qualquer elenco. Lembro que a relação entre a Patrícia e o Kike eram difíceis. Não só com ela, pois alguns outros colegas também se queixavam do Kike, que naquela época começou a apresentar um comportamento diferentew. Eu ás vezes não o reconhecia. Não parecia a mesma pessoa, o mesmo ator com quem eu trabalhara em " Dois Perdidos...". No " Barão" havíamos nos estressados um com o outro algumas vezes, mas parecia algo natural diante da complexidade e vulnerabilidade da proposta. Era sempre o mesmo ator quanto ao talento e dedicação, mas no "Beijo" e depois no "Pagador de Promessas" eu percebia um Kike diferente, contraditório, difícil, voluntarioso. E como quase todos nós artistas de teatro somos voluntariosos...
Tivemos problemas com o cenário. Eu queria bater no Rodrigo Lopes que teve um comportamento completamente anti-profissional, indigno da qualidade que tem como artista criador. Viramos a noite finalizando o cenário. Pintando paredes, pregando, costurando cortinas, colocando um piso de folhas de out-door. Quem fez o cenário, na prática, foi a Patrícia, que sabia mnuito bem o que queria o colocou os andaimes e os fardos de jornais. Uma composição cenográfica linda assinada pelo Rodrigo Lopes que recebeu o cachê, mas não fez o cenário. Passamos anos sem sequer nos cumprimentarmos. Depois, compreende-se que todo mundo tem seu dia e tudo volta ao normal.
Indo diretamente ao assunto que mais me diz respeito e dfo qual me lembro melhor, recordo que me senti desconfortável no papel de Aprígio. Foi uma personagem muito difícil de compor. Alguém que no final diz: " meu ódio é amor" não é pra qualquer ator construir. Foi um trabalho árduo, construído com a coração e a mente em todos os seus detalhes. Era particularmente difícil dotar de loucura e alma àquele pai de família, com todo peso que isso tem quando se trata de Nelson Rodrigues, que no final da peça assume a sua homosexualidade e explicita diante da platéia que se diverte o seu amor pelo genro. Eu vinha de dois trabalhos que alcançaram êxito: " Decameron" e "O Estranho Sr. Paulo". Neste último, a banheira inventada pelo Camilo parece que justificava a loucura da personagem. Mas aqui, no "Beijo", eu deveria ser um louco de terno e gravata. Um escriturário cinquentão perdidamente apaixonado por Arandir. Talves eu tenha levado muito a sério, mas tive enorme dificuldade.
Lembro que a peça foi um sucesso. Estréia concorridíssima, tanto pelo espatáculo quanto pelo novidade do espaço da Benjamin. Muito público. Boas críticas, receptividade ótima, até os colegas falavam bem. Nem todos é claro, pois tem aqueles que falam mal de tudo. São os reponsáveis pela manutenção da lenda dos caranguejos, mas isso já é outra história. Com certeza, a peça dirigida pela Patrícia foi um excelente começo para o "nosso" teatro que se inaugurava naquele momento.



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